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Joana d'Arc: A Mártir da Guerra dos Cem Anos

Camponesa mística que, guiada por vozes divinas, liderou o exército francês em vitórias decisivas contra a Inglaterra na Guerra dos Cem Anos. Sua liderança militar garantiu a coroação do Rei Carlos VII antes que ela fosse capturada por inimigos, julgada de forma fraudulenta e executada na fogueira aos 19 anos.

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Joana d'Arc (1412–1431) transcende a figura de uma camponesa do século XV para se consolidar como o maior mito fundacional da França. Sua trajetória é inseparável da Guerra dos Cem Anos (1337–1453), um conflito dinástico que paralisou a centralização do poder monárquico e devastou a sociedade medieval francesa.

Manuscrito do séc. XV: Joana e seu estandarte.
Fonte: Fonte: Pictures from History / Pictures From History/Universal Images Group via Getty Images | Manuscrito do séc. XV: Joana e seu estandarte.

O Cenário de uma Nação Fraturada

Antes do surgimento de Joana, a França enfrentava seu momento militar mais crítico, dividida por disputas da nobreza que deixaram o Estado à beira do colapso:

  • Ingleses e Borguinhões: Controlavam o norte do país e a capital Paris. Sua aliança buscava dar ênfase à legalidade da união das coroas inglesa e francesa sob o rei da Inglaterra.
  • Armagnacs: Facção da nobreza francesa que resistia às tentativas dos borguinhões de tomar o trono. Eles apoiavam o "Delfim" Charles VII, o herdeiro francês que estava deserdado e acuado ao sul do rio Loire.

Para entender a gravidade do cenário, explore o mapa que ilustra como o território estava retalhado pouco antes da intervenção militar da heroína:

Situação territorial da França em 1429 durante a Guerra dos Cem Anos.
Fonte: Fonte: Wikipédia | Situação territorial da França em 1429 durante a Guerra dos Cem Anos.

Contexto Historiográfico: Em uma época medieval ameaçadora, de fomes, epidemias e mortes, a crença no sobrenatural exercia imensa influência sobre a população. A ideia de uma salvação messiânica serviu perfeitamente como incentivo para unificar exércitos desmotivados em torno de um único rei.

O Chamado em Domrémy e o Encontro de Chinon

Nascida em 1412, no vilarejo fronteiriço de Domrémy, Joana era uma camponesa analfabeta que relatava ter visões místicas desde a infância, nas quais vozes lhe anunciavam a vontade divina: libertar a França do jugo inglês. Diferente de outras místicas religiosas do período, o foco de Joana era incisivamente político e focado na frente de guerra.

No início de 1429, com apenas 17 anos, ela convenceu guarnições locais a escoltá-la através do território inimigo até o castelo de Chinon. Lá, convenceu o Delfim Charles VII sobre a legitimidade de sua missão. Munida de um estandarte próprio — que funcionava como a principal ligação simbólica e sagrada com os soldados — Joana recebeu sua armadura. Sua missão imediata seria encabeçar as tropas enviadas para romper o sufocante cerco inglês à cidade estratégica de Orléans.

A chegada de Joana d'Arc ao teatro de operações da Guerra dos Cem Anos transformou um conflito dinástico exausto em uma cruzada de libertação nacional. A presença da jovem não apenas reverteu a moral das tropas do Delfim Carlos VII, mas também alterou as táticas de guerra francesas, passando de uma postura defensiva para ofensivas diretas.

O Milagre do Cerco de Orléans

Desde outubro de 1428, os ingleses mantinham a cidade de Orléans sob um cerco sufocante, construindo fortes (bastiões) ao seu redor. Orléans era a última grande barreira antes que os ingleses avançassem para o sul da França.

Joana chegou à cidade no final de abril de 1429, trazendo suprimentos e um fervor religioso inédito às tropas. Historiadores militares destacam que ela se recusou a aceitar a tática cautelosa dos comandantes franceses. No dia 7 de maio, Joana liderou um ataque frontal ao complexo fortificado de Les Tourelles. Durante a batalha, foi atingida por uma flecha entre o ombro e o pescoço, mas recusou-se a deixar o campo, retornando à linha de frente após um curativo rápido.

Joana d'Arc no Cerco de Orléans.
Fonte: Fonte: Culture Club / Bridgeman via Getty Images | Joana d'Arc no Cerco de Orléans.

No dia 8 de maio, os ingleses abandonaram seus fortes e recuaram. O cerco havia sido quebrado em apenas nove dias após a entrada de Joana nas batalhas.

A Campanha do Vale do Loire e a Sagração em Reims

Com a vitória em Orléans, Joana defendeu uma ideia ousada: em vez de atacar Paris ou a Normandia, o exército deveria marchar sobre a cidade de Reims, localizada profundamente em território inimigo (controlado por ingleses e borguinhões). Reims era a cidade sagrada onde tradicionalmente todos os reis da França eram coroados.

Para abrir caminho, as forças francesas realizaram a Campanha do Vale do Loire, derrotando os ingleses decisivamente na Batalha de Patay (18 de junho de 1429) — um confronto onde a cavalaria francesa dizimou os temidos arqueiros ingleses.

Fim do Cerco de Orléans
8 de Maio de 1429
Os ingleses recuam após o assalto liderado por Joana a Les Tourelles.

Batalha de Patay
18 de Junho de 1429
Vitória esmagadora do exército francês que abriu o caminho para o norte.

Coroação em Reims
17 de Julho de 1429
O Delfim é ungido Rei Carlos VII, com Joana a seu lado portando seu estandarte.

A coroação de Carlos VII em 17 de julho de 1429 foi o ápice político da missão de Joana. Ao ser ungido com o óleo sagrado, Carlos VII deixou de ser um líder de facção contestado para se tornar o soberano legítimo aos olhos do povo francês, invalidando as reivindicações do rei da Inglaterra ao trono.

Joana na coroação de Carlos VII em Reims.
Fonte: Fonte: Heritage Images / Heritage Images/Getty Images | Joana na coroação de Carlos VII em Reims.

A Queda e Captura em Compiègne

Após a consagração em Reims, a eficácia militar da campanha francesa começou a estagnar. Um ataque precipitado a Paris falhou, e o ímpeto de Joana passou a ser visto com cautela pelos conselheiros políticos do rei, que agora preferiam a diplomacia com os borguinhões.

Na primavera de 1430, a cidade de Compiègne foi sitiada pelas forças do Duque de Borgonha (aliado da Inglaterra). Agindo com pouquíssimo apoio oficial, Joana viajou para lá para ajudar na defesa. No dia 23 de maio de 1430, durante uma escaramuça fora das muralhas da cidade, as tropas francesas foram obrigadas a recuar.

A captura em Compiègne (23 de maio de 1430).
Fonte: Fonte: Culture Club / Bridgeman via Getty Images | A captura em Compiègne (23 de maio de 1430).

Os portões da cidade foram fechados antes que ela pudesse entrar, para proteger a fortificação. Joana foi cercada, puxada de seu cavalo por um arqueiro e feita prisioneira por João de Luxemburgo, um comandante borguinhão. Meses depois, ciente do imenso valor de propaganda de sua prisioneira, a facção de Borgonha a vendeu aos ingleses por 10.000 libras (uma fortuna na época). Carlos VII, consolidando seu recém-adquirido poder, não fez nenhuma tentativa pública de resgatá-la.

O julgamento de Joana d'Arc em Rouen foi, sob o pretexto de uma investigação teológica, um tribunal estritamente político financiado pela coroa inglesa. O objetivo não era apenas condenar a jovem, mas invalidar a coroação de Carlos VII, provando que sua ascensão ao trono fora arquitetada por uma herege e feiticeira, não por vontade divina.

O interrogatório de Joana na prisão.
Fonte: Fonte: Wikipédia | O interrogatório de Joana na prisão.

O Julgamento de Rouen (1431)

Conduzido pelo Bispo Pierre Cauchon, um ferrenho aliado dos ingleses, o julgamento inquisitorial durou meses e foi marcado por severas irregularidades jurídicas, mesmo para os padrões eclesiásticos da época:

  • Falta de Jurisdição e Defesa: Joana foi mantida em uma prisão secular militar vigiada por soldados ingleses, em vez de uma prisão eclesiástica (o que era exigido em casos de heresia). Ela também teve negado o direito a um conselheiro legal.
  • As Armadilhas Teológicas: Os inquisidores tentaram repetidamente fazê-la cair em armadilhas teológicas, como perguntar se ela estava na "graça de Deus". Se dissesse sim, estaria cometendo o pecado da presunção; se dissesse não, confessava sua culpa. Joana esquivou-se magistralmente respondendo: "Se não estou, que Deus me coloque lá; se estou, que Deus me mantenha lá".
  • A Acusação de Travestismo: Sem conseguir provar que suas visões eram demoníacas, o tribunal concentrou-se no fato de ela usar roupas masculinas e armadura. Joana argumentou que o traje era uma necessidade prática e de segurança contra estupros nas prisões militares, mas o tribunal usou a lei bíblica para condená-la.

A Fogueira e o Martírio

Em 24 de maio de 1431, exausta e ameaçada de ser queimada viva, Joana assinou um documento de abjuração no qual negava suas visões e concordava em vestir roupas femininas. No entanto, dias depois, sentindo-se traída pelas promessas de ser transferida para uma prisão da Igreja e temendo agressões, ela voltou a usar trajes masculinos.

Isso deu ao tribunal o pretexto final: ela foi declarada uma "herege relapsa" (reincidente), o único crime que justificava a pena de morte imediata. Em 30 de maio de 1431, com apenas 19 anos, Joana foi amarrada a um pilar na praça do Velho Mercado de Rouen e queimada viva. As cinzas foram jogadas no rio Sena para evitar que fossem recolhidas como relíquias.

A execução de Joana em Rouen (30 de maio de 1431).
Fonte: Fonte: Wikipédia | A execução de Joana em Rouen (30 de maio de 1431).

O Processo de Nulidade (1456)

A história não terminou com sua morte. Vinte e cinco anos depois, com a Guerra dos Cem Anos praticamente encerrada e a França unificada sob seu controle, o rei Carlos VII precisava limpar seu nome da associação com uma herege condenada.

Com a autorização do Papa Calisto III, um novo julgamento póstumo foi aberto, conhecido como o "Processo de Nulidade":

Investigação Inicial
1450
Após a reconquista de Rouen, Carlos VII ordena uma revisão dos registros do julgamento de 1431.

Inquérito Papal
1455
O Inquisidor-Geral da França e legados papais ouvem 115 testemunhas, incluindo clérigos do julgamento original e moradores de Domrémy.

A Reabilitação
7 de Julho de 1456
O tribunal declara o julgamento original nulo, fraudulento e sem validade jurídica. Joana é inocentada e declarada uma mártir injustiçada.

Esse processo transformou Joana definitivamente no símbolo espiritual e nacional da França, removendo a mancha de heresia e pavimentando o caminho que, séculos depois, levaria ao seu reconhecimento final pela Igreja Católica.